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    22/08/2017

    Um olhar sob a primeira pessoa em "O homem perfeito da Vanessa Bosso": defendendo a Samantha

    Olá, leitores!

    Nesta resenha comentei principalmente uma parte que me incomodou no livro "Um homem perfeito", da Vanessa Bosso,  o uso da primeira pessoa, por não termos certeza do que realmente ocorreu e sim a versão de um personagem. Vale ressaltar que também comentarei vários acontecimentos da obra, incluindo seus pontos positivos, portanto, contém muitos spoilers. Vamos lá:
    No livro, temos uma narrativa em primeira pessoa, ou seja, vemos os fatos sendo narrados pela protagonista Melina, a qual depois de dez anos e vários relacionamentos ruins retorna a Paraty, sua cidade natal. Nisso, reencontra Bernardo, o tal homem perfeito do título, um cara que ela traiu com o melhor amigo dele, o Guilherme, e se mudou sem dar satisfação. Porém, o nosso homem perfeito está noivo de Samantha, que foi quem contou da traição.

    Minha história com Samantha é de longa data. Estudávamos no mesmo colégio, com diferença de um ano. Ela estava na sala do Bernardo e, como toda garota intragável, ele era o único gente boa que conseguia aturá-la. Obviamente, ficaram amigos.
    Foto: arquivo pessoal
    Vamos à parte que me incomoda na narrativa: Samantha era amiga de Bernardo, não de Melina, logo, vendo o amigo sendo traído, resolveu contar a verdade (sim, ela só contou a verdade!) e, por isso passa a ser detonada e julgada por Melina durante todo o livro. Nossa protagonista custa a admitir que errou e joga a culpa na Samantha, eximindo também a culpa de Bernardo na história. Afinal, se os dois estão noivos (depois de dez anos, sim, se passaram dez anos e ela fica remoendo isso!), Bernardo também quis a garota.
    Continuando, com a ajuda de uma amiga, Melina bola um plano para roubar o Bernardo de Samantha: invadir sua despedida de solteiro com uma roupa provocante. Como ela consegue, Samantha surta. Vamos aos fatos: a mulher está na véspera do seu casamento, de repente uma ex maluca (que não superou perder o homem) invade a despedida de solteiro e rouba o noivo. Quem não surtaria? Eu ia pirar! Vale ressaltar que não sabemos se o sonho da vida de Samantha era casar, se é do tipo  romântica que planeja o casamento dos sonhos, se for, pior ainda.
    "Melar esse casamento" seria a minha cartada final, um tapa na cara que a derrubaria para sempre.
    Foto: arquivo pessoal

    Para finalizar, temos a única parte em que vimos o ponto de vista de Samantha na história: uma carta, mandada do hospício, na qual temos uma frase em que menciona o caso:

    Desde a infância, eu soube que vocês eram feitos um para o outro e absolutamente nada poderia mudar esse fato.
    Ela pede desculpas, não sei o porquê, talvez o trauma do hospício ou talvez algo que não sabemos na história, visto que ficamos dez anos sem saber da vida do Bernardo, e, consequentemente, do relacionamento dos dois. O que temos de fato (admitido pela própria Melina) é que ela traiu o Bernardo. Pode-se imaginar é que após ele ficar solteiro, Samantha investiu nele, estando ambos livres, não há problema, visto que quem acabou com o relacionamento dele foi a Melina ao trair com o melhor amigo.
    A obra, felizmente, possui pontos positivos. O que mais me gostei foi a ambientação da história na cidade de Paraty, a qual eu não conheço mas após ler fiquei com muita vontade de viajar para lá. Ficamos sabendo desde nomes de praias até a feira do livro local. "Um homem perfeito" é o tipo de livro que nos faz viajar sem sair de casa.
    Outro ponto foi o desenvolvimento dos personagens secundários, inclusive gostei mais deles do que dos protagonistas (Melina e Bernardo), pois são encantadores e do tipo que nos apaixonamos e torcemos para que fiquem bem ao final da história. Destaco aqui os melhores amigos de Melina: Espirito e Nauane.
    Já leram o livro? O que acham de narrativas em 1ª pessoa? O que acharam da Samantha e da Melina? Comentem.

    13/04/2017

    Finalmente encontrei meu livro favorito

    Olá, leitores!

    Sempre me perguntaram qual o meu livro favorito, mas nunca tinha uma resposta formada. Sempre gostei de vários, por vezes respondi simplesmente "a saga Harry Potter", incapaz de escolher entre "Harry Potter e  o cálice de fogo" ou "Harry Potter e o enigma do príncipe", mas por ser  ela que me despertou a paixão pela leitura, não por ter o meu livro favorito nela. Uma vez me disseram que quem não tem livro favorito é porque ainda não o tinha encontrado, nisso, fiquei ansiosa, onde estaria meu livro favorito? Quando o leria?
    Sem mais delongas: esta postagem se trata da obra literária "Xeque-mate da rainha", escrita por Elizabeth Fremantle, publicada pela editora Paralela no ano de 2013 e contém 326 páginas, muito economizada por mim que não queria terminar a leitura. A obra conta a história de Katherine Parr, a sexta e última esposa do rei Henrique VIII da Inglaterra, aquela que foi viúva duas vezes antes de ser cortejada pelo rei e, quando foi  ficou apavorada ao saber do destino das rainhas anteriores:

    Divorciada, guilhotinada, morta, divorciada, guilhotinada. Esse é o histórico das ex-mulheres do meu noivo.
    A título de curiosidade vou mencionar o que ocorreu com as esposas anteriores, em ordem de casamento:

    Catherine de Aragón: o rei se divorciou dela porque já não era mais fértil por isso não poderia dar um herdeiro homem, também para se casar com Anne Bolena. Foi impedida de ver a filha, Maria, após o divorcio;
    Anne Boleyn: guilhotinada após o rei desconfiar que tinha um caso com o seu irmão (considerado incesto);
    Jane  Seymour: morreu no parto ao dar a luz ao único filho homem do rei;
    Anne de Clevis: rei se divorciou dela por não achá-la atraente, não chegou a consumar o casamento, portanto foi anulado;
    Katherine Howard: guilhotina após o rei descobrir que ela tinha um caso com o seu empregado.

    Foto: arquivo pessoal

    Como ela fará para sobreviver na corte sendo rainha? Além disso, na corte, ela se apaixona por Tomas Seymour, cunhado do rei, irmão de Jane Seymour, a única rainha a dar um filho homem ao rei. Todavia, o livro vai além de contar a história de Katherine e mostrar a rotina da corte; ele conta a história de Dorothy, ou simplesmente Dot, a fiel empregada de Katherine, vem de origem humilde, nem ler sabe e de repente está no palácio servindo a rainha da Inglaterra. A visão que Dot tem do palácio é muito interessante, porque acompanhar não só a rotina da realeza como também dos empregados no palácio é fascinante. Ainda temos Meg, a enteada de Katherine, que, após a morte do pai, fica aos cuidados da madrasta e também tem que lidar com a nova rotina e com os pretendentes, pois está na idade de se casar:

    "Mas tenho dezessete anos. A maioria das garotas bem-nascidas da minha idade está casada há dois anos e já prepara o segundo filho."
    Não posso deixar de mencionar como é retratado o rei Henrique VIII, que, nesta época, já estava com idade avançada e doente. Como os demais, é bem construído ao longo da narrativa:
    Ele está com aquela mão que parece um presunto na perna dela, e não se parece nada com o rei. É um homem velho, gordo e massudo, nem um tiquinho magnífico. Katherine parece ser sua filha ou sobrinha.

    Foto: arquivo pessoal

    É um livro cheio de detalhes, inclusive históricos, é fascinante como a autora consegue nos apresentar todas as rainhas anteriores contando a história da última, isso demostra o quanto a protagonista tem medo de ter o mesmo destino:
    Catherine de Aragón banida para acabar num castelo úmido no meio do nada, afastada até mesmo da filha. Anne Boleyn - preciso mesmo dizer?

    Apesar de se tornar meu livro favorito, não diria que irá agradar a todos, pois ele vai "jogando" os personagens, nomes dos quais eu já estava familiarizada por ter visto a série The Tudors. Vale ressaltar que há um pequeno dicionário de personagens ao final do livro. Também é um livro descritivo e denso. Está longe de ser a história de um amor proibido dentro da corte como mencionado na sinopse, aliás, nem concordo com isso, pois é a história de Katherine Parr e toda a corte de Henrique VIII, com menções a Edward, Mary e Elizabeth, os futuros rei e rainhas da Inglaterra. Então para quem tiver interesse neles, recomendo a leitura. Assim como para todos que têm interesse em história. Vale acrescentar que Elizabeth Fremantle fez toda uma pesquisa e procurou manter os fatos históricos, usando a imaginação para compor os pensamentos e personagens que não fazem parte da realeza, já que desses se tem pouco registro.
    O único defeito que posso apontar seria o uso de aspas no lugar do travessão para indicar os diálogos. Sei que ambos estão corretos, mas, por conta do travessão ser mais comum e do grande número de falas, acabei estranhando no início da leitura, no decorrer da leitura me acostumei.
    Já conhecia este livro? Gosta de romances históricos? Qual o seu livro favorito? Comente! 

    22/12/2016

    As irmãs vampiras: uma delícia de amiga, de Franziska Gehm (Resenha)


    Olá, pessoal!
    Já faz um tempo que eu não apareço por aqui, não é? Embora não seja bem o tipo de livro que eu costume ler – ainda mais por ser série –, desta vez vim falar de um livro um tanto diferente, um infantojuvenil, sobre vampiros. E que, além disso, é um livro alemão!
    Meu repertório de leitura sobre vampiros é bem pequeno, mas não é difícil já se ter uma ideia do que esperar com essas criaturas da noite e sugadoras de sangue. Ao mesmo tempo em que pode ser um mistério e se surpreender com vampiros que andam na luz do sol tranquilamente – com pequenos efeitos ocasionais. Felizmente, ou não, na obra de Franziska Gehm, os vampiros não fogem tanto assim do convencional. Ou só um pouco. Pois é, eles andam sim sob o sol – apesar da informação de que podem, sim, virar pó caso não se cuidem –, embora o detestem e o evitem, mas sempre sob uma camada de protetor solar, com óculos de sol, chapéu etc. Esses vampiros voam, vivem milhares de anos e moram na Transilvânia. Além de gostarem de corridas de carrapatos, terem sanguessugas de animais de estimação e precisarem estar sempre com alguns grãos de sua terra natal junto a si. A falta dessa terra, aliás, pode deixar o vampiro em coma e matá-lo.
    Embora só com essas informações já fique claro, volto a dizer: este é um livro para um público jovem, e, mesmo que o foco seja essas criaturas da noite, não há terror ou algo do tipo. Pelo contrário, é um livro bem tranquilo e de leitura rápida, coisa de um dia apenas. Mas se engana se acharem que o livro é ruim. Mesmo com uma narrativa simples, adequada ao seu público, a autora consegue criar um ambiente com vários personagens e intercalá-los de forma, digamos, harmoniosa.
    Fonte: arquivo pessoal.

    O foco do livro, ou melhor, seus protagonistas, Silvânia e Dakária (Daka), são duas irmãs – como diz o título – semivampiras e gêmeas; pai vampiro, o Mihai Tepes, e mãe humana, a Elvira. Embora muito unidas, as duas se diferem em estilo e gostos. Enquanto Silvânia se apega a um estilo mais romântico e se torna uma leitora assídua de revistas e livros humanos – por gostar das questões envolvendo paixão, traição, ciúme etc. –, e isso se reflete em sua vestimenta, Daka já se volta a um estilo mais escuro e, diria, "roqueiro" – há uma cena, inclusive, em que o narrador aponta que ela parecia uma estrela do rock –, além de se apegar muito mais ao mundo vampiro. Tendo vivido seus doze anos de vida na Transilvânia, as meninas precisam se mudar para uma cidade pequena na Alemanha e conviver com humanos, tudo devido à sua mãe. E é aí que a história começa.

    “Daka, com os cabelos de ouriço e os óculos exageradamente grandes, poderia passar por uma estrela do rock saída de uma revista de música em preto e branco de 1978. Silvânia, com o seu chapéu e com a sua saia de corte sofisticado ficaria bem num antigo romance inglês (que falaria, evidentemente, sobre amor, traição, paixão e honra). O sr. Tepes estava muito satisfeito de ver que as suas filhas se destacavam da multidão. Afinal de contas, elas eram diferentes de todos os outros na escola.” (p. 119-120).

    Um ponto interessante, bem abordado, é o choque cultural pelo qual as meninas passam. Todo o conhecimento de mundo que possuíam partia de sua vivência na Transilvânia com vampiros, com costumes para lá de estranhos, como o cascudo na cabeça como forma de comprimento. Escada rolante, ônibus, é tudo novidade para as meninas. Isso me fez pensar que, embora com a fantasia e tudo o mais da história, choque cultural é algo pelo qual muitas pessoas passam, imagino; e, provavelmente, demoram a se acostumar. Afinal, a diversidade do mundo não é pequena. Senão choque cultural, o encontro com o desconhecido.

    “Na Transilvânia, Daka sempre gostara de ir à escola. Ela tinha um pressentimento de que na Alemanha seria diferente. Lembrou-se com nostalgia da festa de despedida na Cripta de Octavian. Sua classe inteira tinha ido, até mesmo a professora da turma voara até lá por um tempinho. O pessoal do clube de voo livre de Daka e o grupo de saikato de Silvânia também estavam lá. Foi a festa mais bonita, e ao mesmo tempo triste, que Daka já tivera. Claro, elas voariam para Bristrien nas férias e veriam todos novamente. Mas não seria a mesma coisa que viver lá.” (p. 53).

    Por outro lado, não dá para deixar de mencionar que há alguns personagens que talvez só venham a ser mais bem explorados nos próximos livros; até o momento há quatro já traduzidos aqui no Brasil pela V&R, sendo que são, ao todo, doze livros, publicados entre 2008 e 2015. Dentre esses personagens, há os vizinhos da família Tepes, o proprietário da loja de Elvira, mãe das meninas, a colega de classe Helene entre outros. Esta colega de classe, aliás, é a que provavelmente dá nome ao subtítulo, dado que as meninas consideraram que ter uma amiga as ajudaria a ter um convívio melhor no mundo humano. Apesar de que isso aparece mais do meio do livro em diante, o que, talvez, seja spoiler comentar mais do que isso.

    Enfim, a narrativa é bem tranquila, retomando fatos e evitando que o leitor se perca, e acrescentando, volta e meia, informações pertinentes para a distinção dos dois “mundos”. E tem aquela capacidade de deixar você questionando o que vai acontecer nos próximos livros – apesar de um tanto previsível. O livro é bem curtinho, 190 páginas que mais parecem só cem; com tradução de Sonali Bertuol e lançado em 2012. Só por curiosidade, aliás, o título original é Die Vampirschwestern: Eine Freundin zum Anbeißen [traduzido para: As irmãs vampiras: uma delícia de amiga], sendo que este primeiro volume foi publicado em 2008. Acho que eu recomendaria principalmente para quem está começando a ler ou que quer algo bem leve e descontraído. E aí? Já conheciam esta série? =)

    29/11/2016

    Harry Potter e a criança amaldiçoada

    Olá, leitores!

    Como a maioria de vocês sabem, comecei a ler com a saga Harry Potter e por isso sou fã. Logo, apesar de ter lido plot do roteiro e não gostado, me senti na obrigação de comprar e ler este o oitavo livro, é aquela história de ter que terminar a saga.
    Vale ressaltar que temos o roteiro da peça produzida em Londres, ou seja, se difere dos sete romances publicados anteriormente. Como é um roteiro, não temos descrições dos locais ou aparência de personagens, já que no teatro tudo isso é visto pessoalmente. Confesso que apesar de conhecer o gênero, senti falta das descrições de locais.

    Foto: arquivo pessoal

    Bom, vamos ao enredo: a história começa exatamente no final do "Harry Potter e as relíquias da morte" mostrando a insegurança de Alvo Severo, o filho do meio de Harry e Gina, em ir para Sonserina e... bom... é para lá que ele vai! Alvo Severo é rapaz inseguro, que sente a cobrança dele por ser filho do famoso Harry Potter, porém ele não tem o mesmo talento do pai pois mal sabe montar numa vassoura. Além disso, se sente diferente e excluído por ser único dos filhos de Harry a ir para a Sonserina. É nessa casa que faz amizade com outro que é deixado de lado, Escórpio Malfoy, esse todos fogem por ter um boato que é filho do Voldemort, aliás uma das inúmeras coisas mal explicadas na trama. Harry, ao saber dessa amizade, faz de tudo para separar porque acredita que Escórpio é uma má influencia pro filho. Vale ressaltar que já não se dão bem, Harry não consegue compreender que Alvo é diferente dele. Após uma das brigas entre pai e filho, Alvo escuta uma conversa entre o pai e Amos Diggory, o pai de Cedrico, que pede para que Harry volte no tempo e salve seu filho, Harry se nega alegando que mexer é perigoso. Logo, Alvo, na companhia de Escórpio, resolve voltar no tempo e salvar Cedrico.

    Harry (enfim perdendo o controle): Sabe do que mais? Estou farto de ser responsabilizado de sua infelicidade. Pelo menos você tem um pai. Porque eu não tive, está me ouvindo?

    Foto: arquivo pessoal

    A princípio eu gostei do plot, pois sempre achei que Cedrico, assim como vários outros personagens, não merecia ter morrido. Porém, há muitas divergências entre os oitos primeiros livros e esse, isto é, informações que não batem. Pretendo fazer um post só sobre isso contando spoilers.
    Finalizo a presente resenha dizendo não sei ao certo a minha opinião sobre o livro, por um lado não gostei por conta da descaraterização dos personagens, além dos novos não serem bem trabalhados. Mas ao mesmo tempo não posso negar a nostalgia e a emoção de estar lendo Harry Potter de novo, então gostei por esse ponto. Aconselho os fãs da saga a lerem por conta disso.
    Já leram? Gostaram? Pretendem ler? Comentem.

    22/06/2016

    Short Story: escritos manchados de sangue, DeCastro (Resenha)

    Olá, pessoal!
    Já ponderaram que, como leitores, talvez nem paremos para pensar pelo que um escritor passa até que sua obra esteja pronta, passe por todo o processo editorial e chegue até nossas adoráveis mãos? Digo, será que paramos para pensar como ou pelo que o escritor passou para escrever tal obra? Imagina-se, muito provavelmente, que há um momento de inspiração envolvido. Sem inspiração, não há texto; é o que muitos dirão – há uma associação muito curiosa entre escrever e inspiração. “Por que tu não escreves?”, “Ah, estou sem inspiração” – provavelmente já ouviram essas frases ao menos uma vez na vida. Mas... será que só inspiração basta? Não só isso, como alcançar essa inspiração? Não pretendo, nesta resenha – nem provavelmente nunca –, dar uma resposta a essas perguntas. Apenas achei pertinente lançá-las ao ar, apenas para refletir um pouco; até pelo fato de que, para respondê-las, se precisaria falar da bagagem do escritor etc. – acrescento, apenas, uma fala de um professor do curso de Letras, sobre quando passamos por essa falta do que dizer, a falta de inspiração, que consistia, basicamente, de uma palavra: “leiam” (<3).
    E toda essa pequena reflexão partiu de um único conto: “uma francesa”. O conto faz parte de uma coletânea intitulada “Short Story: escritos manchados de sangue”, do escritor DeCastro – também colunista no blog Historiar. O livro possui nove contos, sendo esses bem diversos e ligados por um elemento: a morte. Cada conto mostra uma nova história, que variam significativamente de tamanho, alguns mais breves, mais ou menos umas duas páginas, e outros mais longos, mais ou menos umas trinta páginas, mas todos trazem a certeza de que há ali marcas de sangue e morte. Numa perspectiva geral, se pensarmos no livro como num sistema cardiovascular, a presença de assassinatos e mortes seria o coração, responsável por manter toda a obra em circulação, e nas veias e artérias principais poderíamos ver aspectos sociais – a convivência humana em si – e mesmo certa dose da política/religião, não se esquecendo de ver uma veia erótica que permeia grande maioria dos contos. Ainda como esse sistema, vê-se que é uma obra fechada, mas que poderia abrir-se a mais histórias e/ou pensamentos e reflexões sobre o que ali encontramos.
    Sumário de "Short Story: escritos manchados de sangue", de DeCastro.

    Parece-me difícil resenhar um livro de contos – algo que estive, esses dias, comentando com a Helena (Leituras & Gatices) –, pois não é apenas uma história a se analisar, são diversas. E, por serem diversas, dificulta passar uma impressão sobre cada um dos contos, pois, além de prolongado, seria um texto cansativo de se ler. De modo que minha opinião pode ser muito superficial, por fazer um aparato mais geral e comentar, de fato, apenas de um dos contos. E se torna mais complicado quando se vê que o autor consegue mesclar diferentes estilos narrativos nos contos, não se atendo a apenas uma forma de narração, como sendo mais objetiva e direta ou bem descritiva; o conto “Príapo” é um exemplo claro disso, pois, no decorrer do conto, há alteração no desenvolvimento da narrativa, sendo ora mais descritiva, ora constituída de frases com uma palavra apenas. E isto feito de modo que o leitor consegue perceber a diferença de cada cena, ou melhor, consegue imaginá-las e perceber toda a sequência imagética ali presente. Como um claro exemplo, há a sequência “Punhal. Frasco. Sangue. Agenda.”, em que, embora assim isoladas possam passar interpretações muito diferentes, pelo fato de já estarem contextualizadas no conto, o leitor consegue perceber a continuação, uma espécie de ritual ali contido. Embora, particularmente, prefiro frases mais detalhadas, não posso negar que essa brevidade permitiu que o conto se tornasse fluido e agradável de ler. Porque, de outro modo, a leitura poderia ser cansativa.
    Além disso, convém ressaltar que os contos trazem um vocabulário curioso – com isso digo que é muito bom –, que não se costuma encontrar em literatura contemporânea – o que me fez ir ao dicionário algumas vezes. E considero isso um ponto muito positivo.

    “As personagens são como vampiros, cravam os caninos na nossa jugular e quando amanhece, voltam aos seus sepulcros até que anoiteça de novo.” (Lygia Fagundes Telles)

    Essa frase aparece logo nas primeiras páginas do livro; uma visão curiosa e mesmo fascinante dos personagens. Imagino que seja também uma forma de sinalizar tanto a força dos personagens quanto o momento de leitura. Aliás, convém mencionar que os contos, embora sejam de fato ficção, não possuem elementos fantasiosos, o que realça a verossimilhança e a possível associação com caráteres reais. Em diferentes momentos da obra são demonstrados diferentes aspectos da capacidade humana, que, embora uma raça considerada superior, consegue se tornar desprezível, vil e suja. E essa questão me lembra, um pouco, do livro A Máquina do Tempo, de H.G. Wells, que abarca a questão da inteligência humana – às vezes, vendo ao nosso redor, chega a parecer que algumas pessoas são como seres do mundo superior de Wells, no que tange o uso de nossa maior arma, e às vezes soam como seres do mundo inferior, que embora na posse de certa inteligência agem como “animais”.

    “Embora assustador, humanos são animais sádicos e sujos” (p. 37, As freiras de Salem)

    Apesar de parecer fugir um pouco da linha de raciocínio, pensar sobre isso me trouxe à mente o fato da influência do meio. Não acho necessário explicar, mas convém observar que, assim como estamos submetidos à livre escolha de nossos pensamentos, o que nos cerca pode vir a nos moldar, ou mesmo limitar – não digo que seres humanos são totalmente sucessíveis ao meio, mas que essa é uma característica que marca muito. Um dos contos, aliás, mostra um pouco disso; que o ambiente, ao se tornar exaustivo, pesaroso, afeta as pessoas. O próprio título é sugestivo, Quebra de rotina, em que, tendo o ambiente cotidiano se tornado um fardo, uma rotina cinzenta e desagradável, percebe-se um peso tão forte na alma humana que por vezes indivíduos são levados a ações extremas apenas para se verem livres da agonia dessa “rotina”. Da vida apagada, sem cor, fatigante.

    “Todos ali não passavam de meras peças de um quebra-cabeça, com funções bem delimitadas e que se, colocadas em outras disposições, não se encaixariam e assim, seria impossível a formação esperada pelo rótulo do brinquedo” (p. 40, Quebra de rotina)

    E são sensações que perpassam muito a sociedade. As pessoas, ainda, por vezes não se contentam com o que possuem, ou mesmo não conseguem ter e ver que há dias melhores – talvez – para vir. E, como peças, encaixadas para agir daquele modo, e apenas assim, ao perceber certo desconforto, não se consegue uma adaptação a má posição encontrada. O que me recorda de uma frase de Aldous Huxley, de Admirável Mundo Novo, em que uma pessoa mal adaptada é um perigo à sociedade. E no conto Quebra de rotina, pode não ter sido à sociedade num todo, mas afetou mais do que o próprio personagem, sua ação refletiu em toda sua família ali presente – o homem toma em mãos seu destino e o de seu filho. Outro tópico é também apresentado; o suicídio como válvula de escape do aborrecimento que pode ser continuar a viver.

    “Mais valerá uma morte no corpo do que n’alma” (p. 49, A sentença)

    Ou, como no conto A Sentença, a morte como punição por algo que vai contra princípios estabelecidos por dado grupo etc. Além disso, nesse conto, a morte demonstra ser menos pesarosa se esta for provocada em motivo de uma causa maior – se não me engano, já comentei sobre algo relacionado em Espada de Vidro, sendo outra visão de morte de uns como algo que garantirá o “bem” a outros.
    Bem, para que não se perca a graça da leitura e do elemento surpresa, principalmente por serem contos e qualquer resumo pode vir a ser um spoiler, evito, aqui, comentar os outros contos. Acrescento, apenas, duas coisas: que a brevidade e a narrativa por vezes objetiva podem ser cruéis se formos parar para pensar a respeito; e que os finais, apesar de compreensíveis – isso é, de conseguirmos saber como terminam (a maioria) –, não são explicitamente claros, mas são subentendidos pelo leitor. 


    Por fim, reparei em alguns “erros” na obra, como costumo reparar sempre – Celeuma agora é prova de como, infelizmente, não deixo isso passar. Mas, neste caso, conversei com o autor e ele já está ciente desses pequenos probleminhas.

    Resta apenas dizer que, apesar da decepção que anda os atuais livros nacionais, ainda há os que se salvam e trazem questões voltadas à morte e a incompletude que é o ser humano. Recomendo a quem gosta de contos e tem certa preferência por leituras envolvendo mortes. Enfim, essa foi a primeira vez que resenhei um livro de contos, mas espero que tenha conseguido passar um pouco do que é a obra a vocês. 

    17/06/2016

    A elegância do ouriço, de Muriel Barbery (Resenha)

    Olá, pessoal!
    Sabem quando gostas tanto de um livro que sente a necessidade de comentá-lo com alguém? De recomendá-lo? Pois bem, é por isso que decidi apresentar o livro “A elegância do ouriço”, da escritora Muriel Barbery. Se tornou um de meus favoritos (<3). A edição que li é da Companhia das Letras, a 7ª reimpressão, de 2008. A tradução é de Rosa Freire d’Aguiar; o título original é L’elégance du hérisson.
    Esse foi o livro que li logo em seguida de “Celeuma” (cuja resenha ficou um pouquinho grande...), e, talvez por isso, eu tenha me impressionado tanto com a obra de Muriel. Em outras palavras, depois de uma leitura um tanto decepcionante, pra não entrar em detalhes, qualquer livro bom poderia ser incrível para mim. Mas acredito que o livro de Muriel é magnifico por vários motivos. E tentarei demonstrá-los.
    O livro é dividido em cinco partes: Marx (Preâmbulo); Camélias; Sobre a gramática; Chuva de verão; e Paloma. A história possui duas narradoras, sendo uma delas a jovem Paloma e a outra a concierge (ou zeladora) Renée. A edição do livro deixa claríssimo quem está narrando sem precisar colocar seus nomes; a fonte utilizada por cada uma é diferente, além de que a numeração de uma não afeta a de outra.
    Primeiramente, somos apresentados a Renée, uma mulher de cinquenta e quatro anos, viúva e que nutre um gosto pela literatura – ela tem um gato chamado Leon em homenagem a Tolstoi! – e pela Arte. Mas, ao mesmo tempo, vemos que, por dado motivo, ela finge ser uma mulher grosseira e ranzinza. Isso é, nenhum dos moradores do número 7 da Rue de Grenelle sabe, ou mesmo percebe, que ela é uma pessoa um tanto sensível e que aprecia a Arte. A única pessoa que conhece esse lado de Renée é sua amiga Manuela, que possui um gosto particular pela culinária de doces. As duas possuem esse refinamento – Renée diz que ambas são aristocratas – que não costuma ser esperado de pessoas em suas posições sociais, o que mostra o trabalho com os estereótipos – algo que a autora utiliza bastante, mas de um modo sutil. Apesar de alguns personagens demonstrarem esses estereótipos ou mesmo serem de desenvolvimento pouco profundo, dá para se notar que há o objetivo de se deixar assim; estereótipos existem por uma razão, e Muriel soube expor isso sem se tornar cansativo ou apenas uma repetição do que sempre é dito. A própria narrativa de Renée permite esse contraste, sendo que sua fala é meio reflexiva e questionadora.

    “O que é uma aristocrata? É uma mulher a quem a vulgaridade não atinge, embora esteja cercada por esta” (p. 30, Renée).

    Gostaria de poder comentar sobre o desenvolvimento de Renée no decorrer da história, mas, como seria spoiler, observemos um pouco da outra narradora do livro, a adorável Paloma – embora xará da moça de “Celeuma”, essa Paloma é uma personagem simplesmente cativante. A jovem narradora é uma adolescente de doze anos, decidida a encontrar um sentido para a vida ou então se suicidar no dia de seu aniversário de treze anos, além de pôr fogo no apartamento – quando ninguém estiver em casa. Engana-se quem achar que a escrita dela será, por esse motivo, um drama exagerado de menina rica. Até me surpreendi pela escrita utilizada pela autora para Paloma; um estilo sutil, bem desenvolvido – acrescento que as conclusões da menina seguem uma linha de raciocínio – e que, embora um tanto melancólico e voltado para sua visão de que não há sentido na vida (algo que eu adorei), reflete o espírito em dúvida do ser humano, a angústia de continuar sem saber o porquê. A necessidade que temos de ter um objetivo; uma finalidade na vida. Além de mostrar que as pessoas são mais do que aparentam – e isso também quanto a Renée.
    Apesar de ser uma adolescente narrando, e no começo do livro ela parecer um pouco arrogante, pode-se perceber que a escrita é rica de pensamentos sobre as ações humanas. Paloma é uma adolescente quieta, que gosta de um ambiente tranquilo para pensar sobre o mundo, numa forma de se enclausurar, uma fuga de seus desagrados cotidianos – como sua irmã que está sempre ouvindo músicas em alto volume.
    Espero que gostem desse livro, porque olha... é lindo. <3
    Um fato intrigante é que Paloma não aceita o suicídio como uma fuga dos problemas, e sim uma alternativa para a vida que não há sentido ser vivida. Para ter certeza de que não estará tomando uma decisão errada, ela decide escrever dois diários: Pensamentos Profundos, e Diário do movimento do mundo. No primeiro, ela expõe pensamentos que considera profundos, isso é, fatos que a fizeram pensar sobre si mesma ou sobre as pessoas ao seu redor. No segundo, ela busca observar movimentos do mundo, coisas do cotidiano, que lhe sejam interessantes e mostrem o desenvolvimento de onde vive.

    “E também, acima de tudo, lancei a mim mesma um pequeno desafio: se a gente se suicida, deve ter certeza do que faz e não pode queimar o apartamento “a troco de nada”. Então, se existe alguma coisa neste mundo pela qual vale a pena viver, não devo perdê-la, pois, quando estiver morta, será tarde demais para ter arrependimentos e porque morrer por termos nos enganado é, de fato, muito idiota” (p. 36, Paloma).

    Paloma é, em síntese, o que falta ao ser humano do século XXI, esse humano pós-moderno: a sensibilidade, o olhar ao redor. Até pelo fato de que a própria Paloma não percebe tudo que a cerca, pois ter sensibilidade não implica necessariamente em perceber tudo, e sim estar mais atento, ser mais observador, apreciar a arte – para que não haja equívocos, refiro-me, aqui, não apenas a pinturas e músicas, como também a Literatura, entre outras formas de arte. Além disso, por meio dos pensamentos da jovem somos levados a pensar sobre atitudes tomadas cotidianamente – às vezes por preguiça, ou pela correria do dia a dia – e sobre a visão de futuro, como este é evitado e espera-se por ele, num misto confuso que não permite pausa.

    “Mas, se tememos o amanhã, é porque não sabemos construir o presente e, quando não sabemos construir o presente, contamos que amanhã saberemos e nos ferramos, porque amanhã acaba sempre por se tornar hoje, não é mesmo?” (p. 138, Paloma).

    É interessante que ambas as narradoras nutrem certo gosto por elementos da cultura japonesa. Um, em particular, que achei fascinante, foi a comparação entre portas, feita pela Renée.

    “Desde o primeiro filme, O gosto do arroz com chá verde, fiquei fascinada pelo espaço de vida japonês e por essas portas que correm e se recusam a fraturar o espaço e deslizam suavemente sobre trilhos invisíveis. Pois, quando abrimos uma porta, transformamos o local de um modo bem mesquinho. Chocamo-nos com toda a sua extensão e ali introduzimos uma brecha indiscreta resultante das proporções erradas. Se pensamos bem, não há nada mais feio que uma porta aberta. No aposento onde fica, ela introduz como que uma ruptura, uma interferência que quebra a unidade do espaço. Na peça contígua, gera uma depressão, uma fissura imensa e, no entanto, estúpida, perdida num pedaço de parede que preferiria ter ficado inteira. Nos dois casos, perturba a extensão sem outra contrapartida além da licença de circular, que pode, porém, ser garantida por vários outros processos. A porta de correr, por sua vez, evita os obstáculos e magnifica o espaço. Sem modificar o equilíbrio, permite a metamorfose. Quando é aberta, dois lugares se comunicam sem se ofender. Quando é fechada, cada um deles recupera sua integridade. A divisão e a união se fazem sem intrusão. A vida ali é um calmo passeio, ao passo que entre nós ela se aparenta a uma longa série de arrombamentos.” (p. 161-162, Renée).

    Além das narradoras, há outro importante personagem na história, responsável por certo movimento na história, o japonês Kakuro Ozu. Que, curiosamente, possui dois gatos com nomes em homenagem ao mesmo escritor russo que Renée adora. Pode-se dizer que as engrenagens que moviam a história até então passem a fluir em outro ritmo, e vemos uma mudança curiosa tanto na Renée quanto na Paloma.
    O desenvolvimento da história, num geral, foi bem explorado. Um pouco clichê? É, talvez. Mas o livro é fantástico! Ainda mais se pensarmos no movimento dos personagens. O que faz Paloma chegar as suas conclusões e como é tratada tanto por sua família quanto pelos outros dois personagens principais. Embora sutil, a relação que estabelecem entre si, apesar do curto tempo, é compreensível e mesmo admirável.
    Até o Smell (o coelho da foto) gostou. ;)
    Ademais, há três elementos fascinantes que aparecem no livro: gatos, Literatura, e gramática. E isso aparece na narrativa de ambas as personagens, e, para mim, que gosto desses três elementos, deixa o livro bonitinho e interessante de ler. Há até mesmo um capítulo em que Paloma critica sua professora quanto à justificativa do ensino de gramática! Uma questão que discutimos algumas vezes no curso de Letras, até. “Para que aprender gramática?”. Pode-se até dizer que algumas das reflexões de Paloma parecem até um pouco profundas demais para uma adolescente... Mas só o fato de não ser uma adolescente chata com problemas de adolescentes comuns já me agradou. Com isso digo o “comum” que muito aparece em livros atuais, como bebidas, festas, amigos meio chatos etc. Paloma demonstra, sim, esse seu lado problemático familiar, sua fuga dos problemas e que problemas pretende causar para fugir deles, porém, faz isso de uma forma mais reflexiva, interiorizada... diria até que com certa graciosidade.
    Claro que o livro possui algo que em dado momento me desagradou, que me fez pender entre se gostei ou não desse fato, se fez sentido ou não etc. Não chega a ser um spoiler, por isso contarei. Em dado momento, Renée comenta que está escrevendo um diário, o que chega a parecer que toda sua fala seja seu diário, e eu fui lendo pensando que fosse... Porém, ao final fica claro que não é um diário; ela até pode escrever um diário, mas não é o escrito que estamos lendo.

    Enfim, num geral, pode-se perceber que a Muriel Barbery conseguiu criar uma bela história sobre A elegância do ouriço, mesclando literatura, gatos, arte e pensamentos acerca do mundo. A escrita é fluída e os pontos negativos são pouquíssimos se compararmos com os pontos positivos; por isso, recomendo muitíssimo esse livro para quem se interessou e quiser conhecer essa excelente autora. Então, já conheciam a autora e esse livro?

     “Vejo direitinho os sintomas deles, mas não sou competente para curá-los e, com isso, também fico tão doente quanto eles mas não vejo” (p. 311, Paloma).

    20/05/2016

    Um Amor de Cinema (Resenha)

    Olá, leitores, 

    Ao longo da trama, o livro cita diversas
    comédias românticas famosas.
    Continuando o meu desafio de resenhar as minhas leituras do ano passado, o livro de hoje é Um Amor de Cinema, de Victoria Van Jiem. Lançado pela editora Verus em 2014, o livro de 294 páginas traz a história de Kenzi, uma designer que parece ter conquistado tudo em sua vida, menos a aprovação de seus pais. 
    Prestes a se casar com Bradley, ela descobre que está arriscada a perder o emprego porque a agência de publicidade na qual trabalha está com problemas financeiros. Paralelamente a crise, Kenzi precisa lidar com uma amiga que tem tudo para ser da onça, pois foi responsável por um término de relacionamento traumático que Kenzi teve no passado.
    A única chance da protagonista salvar o emprego é conseguindo fechar um contrato importante com um cliente que pretende fazer um restaurante no lugar. E isso seria ótimo se o dono do estabelecimento não fosse Shane, seu ex-namorado, que impõe como condição para fechar o contrato que ela reviva cenas de filmes românticos com ele.
    Depois de 7 anos afastado de Kenzi, Shane Bennet cruza a vida dela novamente ao resolver abrir um restaurante com a temática do cinema, daqueles que passa filmes enquanto as pessoas estão comendo. E como filmes era a grande paixão de Kenzi quando eles namoravam, Shane se inspirou nela para abrir o negócio e gostaria bastante que ela participasse do projeto.
    Algo que eu achei bem criativo na obra foi os títulos dos capítulos, pois tratam-se de trocadilhos com nomes de filmes citados ao longo da obra, representando também o estado de espírito da protagonista no momento e situações pelas quais ela está passando. 
    Os títulos dos capítulos
    são bem criativos.
    Entre os filmes que os protagonistas revivem as cenas durante a história estão Uma Linda Mulher, O casamento do meu melhor amigo, Dirty Dancing: Ritmo Quente, Vestida para casar, Mensagem para você, O Diário de Bridget Jones e outras comédias românticas. No livro também aparecem várias referências a outros filmes famosos, como Enquanto você dormia, Como perder um homem em 10 dias, O casamento dos meus sonhos, De repente 30, Amor a segunda vista, Quatro casamentos e um funeral e outros títulos do gênero. Por eu gostar muito desse tipo de comédia romântica, fiquei louca para ler quando descobri a existência desse livro.
    Mas, como ele não estava na minha meta de leitura de 2015, me obriguei a esperar até que eu terminasse todas as leituras da meta original, para enfim conhecer essa história. E posso dizer que esse livro está sem dúvida entre meus 5 livros preferidos de 2015 e também entre os preferidos da vida, porque é realmente maravilhoso poder juntar duas coisas que eu gosto tanto: livros e comédia romântica. 

    E você, já leram esse livro? Pretendem ler? Me contem nos comentários.

    16/05/2016

    Celeuma, de André Leal (Resenha)


    Olá, pessoal!

    Um pequeno detalhe inicial: Esta resenha será um pouquinho diferente, um misto de comentário sobre escrita de textos e sobre algo que escritores devem muito – muito mesmo, mesmo, mesmo – evitar e a resenha propriamente dita do livro “Celeuma”, de André Leal, publicado pela editora Chiado em 2015, contendo 232 páginas. O texto ficou um pouquinho grande, e peço desculpas por isso, me empolguei um pouquinho ao escrevê-lo.


    Primeiramente, precisa-se ver que a produção de um texto não é algo tão simples como jogar centenas de palavras num monte e então colocar um ponto final. Produzir um texto implica em muitos detalhes pequenos, a começar pelo que se está dizendo e qual o propósito disto. Se for um texto informativo, por exemplo, uma notícia, a mensagem precisa ser sucinta, objetiva. Não há espaço para descrições longas e subjetivas quanto ao local, quanto às pessoas envolvidas ou o que as levou a tal ato. O que é diferente de um romance, em que tudo pode ser explorado. Diferente de textos informativos, o gênero romance permite muitas abordagens e formas de escrita diferentes – e tudo também dependerá do narrador, se em 1ª ou 3ª pessoa. Romances, ao contrário de outros gêneros, possuem públicos por vezes bem específicos. “Como assim?” Por exemplo, os livros mais contemporâneos como Jogos Vorazes e A Rainha Vermelha possuem públicos mais adolescentes, o que não quer dizer que outros públicos não possam lê-los, mas sim que a recepção da obra será diferenciada. E isso não só quanto à suposta faixa etária do público-alvo, mas também quanto ao nível de leitura do leitor, a quanta bagagem literária ele já tem.

    E o que isso tem a ver com a produção do texto? Basicamente, tudo.

    Para que fique bem claro, é só pensar em um livro clássico qualquer e na sua adaptação juvenil. O público-alvo das adaptações costuma ser jovens leitores que não possuem gosto pela escrita mais densa/rebuscada/etc. ou mesmo por livros grandes. A história é a mesma, mas a escrita será diferente. Isso importa? Sim, muito. Principalmente se és uma pessoa que se importa com o estilo da narrativa – com a complexidade com que a história é contada, com os detalhes etc. Um livro ganha valor não apenas por sua história, mas também por como essa história é contada.

    Então, pensar no público que pretendes atingir com sua obra é realmente importante. Se queres atingir os adolescentes dificilmente conseguirás se utilizares de uma escrita machadiana, por exemplo – pelo menos não nos dias de hoje. “Preciso pensar nisso quando escrevo meu livro?” Sim e não. Mas acho relevante pensar nisso quando terminá-lo e for publicá-lo.

    Diferente livros, diferentes estilos, gêneros e narrativas.
    Fonte: arquivo pessoal.

    E, considerando tudo isso, convém falar de mais um ponto realmente significativo: a revisão.

    Não existe só um tipo de revisão – pode ser só gramatical, ou focar no sentido etc. Considerando a revisão como uma coisa só – o que talvez não seja algo adequado, mas prolongar muito não é o sentido deste texto –, não se diz apenas de verificar se todos os acentos foram colocados ou “arrumar” as crases. A revisão, que muitas vezes se associa com a reescrita, implica também em organizar o texto deixando-o coeso e coerente. Em outras palavras, evitar frases ambíguas ou que causem estranheza; possibilitar que o texto fique o mais fluído e legível possível. A revisão é uma das partes mais cruciais num texto, que não pode ser ignorada. Após pronto, o texto deve, sem exceção, passar por uma ou mais revisões.

    Porém, apesar de ser essencial, deve-se tomar cuidado com duas coisas. Primeiro que a pessoa a revisar precisa ter um conhecimento mínimo sobre isso; não adianta querer revisar o texto gramaticalmente se não souber a diferença de “a” e “há” ou “entendera” e “entenderá”, por exemplo – isso em questões mais simples. E segundo que, se for o próprio autor a revisar o próprio texto, precisa-se de certo distanciamento do texto. Isto é necessário porque, ao ter escrito o texto, inconscientemente o texto estará formado em sua mente e muitos equívocos – coisinhas simples mesmo – passam despercebidos. O que não quer dizer que a pessoa não saiba corrigi-lo, mas que, ao não manter esse distanciamento antes da revisão – pode ser um ou dois dias ou mesmo semanas e meses –, muito provavelmente não conseguirá detectá-los. Nem todas as pessoas ficam preocupadas se há ou não há erros na escrita, mas, para quem se incomoda com isso, é realmente perturbador. A leitura sofre pausas, e mesmo momentos de irritação – para quem não entende isso, deixo a seguinte comparação: pense em estar ouvindo uma música ou algum programa audiovisual e por algum motivo sinistro a mídia fique pausando, mostrando estática... (muito provavelmente vais precisar respirar fundo para continuar ouvindo/assistindo). Enfim, como eu disse antes, o livro não é apenas a história, mas como a história foi contada – e os erros contam.

    Fonte: arquivo pessoal.

    Começarei meu comentário de “Celeuma” por esse ponto: sua revisão. Não sei como funciona o processo de publicação de um livro, tenho apenas uma vaga ideia. Também não sei afirmar se a editora disponibiliza ou não o serviço de revisão; imagino que fique a critério do autor. Apesar disso, quando o leitor se depara com um livro cheio de erros, a primeira coisa que vem à mente é que a culpa é da editora. Sendo um pouco chata com revisão, peguei o costume de observar nas primeiras páginas do livro se houve algum revisor, e quantos foram. Porque, sim, muitos livros recebem mais de uma revisão – e aqui entra a questão de diferentes revisões. Primeiramente, a “culpa”, ou melhor, a responsabilidade, quanto aos erros é do escritor, mas ele não tem a obrigação de escrever tudo perfeitinho, até mesmo porque sem o distanciamento do texto dificilmente ele conseguiria corrigi-lo. Para isso existem revisores! Enfim, todo mundo erra, é normal passar um ou dois errinhos. O que não pode ser deixado passar é um livro inteiro repleto de erros e equívocos. Da primeira à última parte. “Celeuma” deixou a desejar a partir do momento em que o próprio autor é o revisor da obra. E o motivo já foi explicado.


    Eu poderia dizer que deve ser porque não faço parte do público-alvo da obra, mas isso não muda o fato de que há erros. Não é porque o público não será leitor de clássicos e chatos com revisão que o livro deve deixar a desejar nisso. Mas talvez o público-alvo sequer note os erros, e daí? Bom, sinto muito, eu notei.

    Bem, falemos da obra em si. O que é, afinal, “celeuma”? Eu só vim a me deparar com esta palavra pela primeira vez quando vi o livro no catálogo da editora Chiado. Devo admitir que a capa chamou muito a minha atenção – mas falarei disso depois. O próprio livro, nas primeiras páginas, traz uma definição sobre o que é “Celeuma”. 

    Definição de Celeuma encontrada no livro.
    Fonte: arquivo pessoal.
    Um dos pontos que mais chamou a minha atenção na obra foi o estilo da narrativa pelo qual André Leal optou. É um misto de peça de teatro com prosa. Os diálogos são utilizados como nas peças, isso é, há o nome de quem está falando e, logo após, a fala. Porém, senti falta de algo como dois pontos após o nome; essa escolha de nome e logo após a fala ficou estranha.  E há a prosa no que se refere aos pensamentos – e falas – do narrador do capítulo. Aliás, são vários narradores, sendo todos integrantes da história. É possível notar que o narrador do capítulo não possui suas falas como os outros; podemos perceber suas falas a partir de seus pensamentos. Esta é uma estratégia realmente interessante, e, embora nem sempre saibamos o que exatamente o personagem falou, temos uma ideia – então, não se preocupem, isso não dificulta a leitura. Esta estratégia, contudo, não funciona com apenas uma personagem: a Paloma. Nos capítulos dela há as suas falas. (Será que foi de propósito?).


    Estilo narrativo optado pelo autor.
    Fonte: arquivo pessoal. 

    Bom, sobre o que é o livro? Deixarei que a sinopse da contracapa responda:

    Celeuma conta a história de uma idosa que se dedica ao propósito de atormentar o próximo. Com sua capacidade única em criar intrigas e mentiras, passa o tempo controlando a vida alheia na tentativa de impor do alto de sua pequenez seu pensamento limitado e mesquinho. Determinada a acabar com o casamento do genro se aproveita da ausência do mesmo iniciando uma jornada ditatorial em prol da moral e dos bons costumes na esperança de reviver um passado distante e improvável. Contudo suas armações e revelações desenterram segredos questionando o caráter dos envolvidos alimentando a fornalha que move o conflito em sua mais pura personificação; o ser humano. (esta sinopse pode ser encontrada na contracapa do livro, no próprio site do livro ou no catálogo da editora Chiado).

    Embora não seja um ponto realmente importante para a obra, gostaria de falar um pouco sobre essa personagem, a Paloma. Antes de qualquer coisa, meu conhecimento sobre Psicologia e Psiquiatria é muito limitado, então, caso eu diga algo errado, sintam-se à vontade para me corrigir – afinal, minha área não é essa. Paloma é a terapeuta de Fabrício, que é filho de Nívea e Rodolfo e neto de Celeuma – mas depois falo dela. Pelo que pude compreender, Fabrício – um rapaz de vinte anos – está fazendo terapia por não aceitar a separação dos pais, se revoltando com isso, jogando a culpa de tudo que acontece na separação deles – isso é, o problema é uma questão familiar. Nos meus limitados conhecimentos, acredito que essa seria uma situação em que um psicólogo atuaria, pois é algo relacionado ao emocional, em sessões semanais. O personagem Fabrício, no que se mostra dele no decorrer do livro, não possui “problemas” mais sérios, nada que chegasse ao ponto de precisar de um psiquiatra – que, aparentemente, não possui sessões semanais, e sim mensais, ao contrário do que aparece no livro –, que costuma ser o mais recorrido em situações que necessitam de medicação ou coisas do tipo. E, contudo, Paloma não é psicóloga e sim psiquiatra, formada em Medicina com especialização em Psiquiatria. Particularmente, achei que ela fugiu muito de seu papel profissional – mesmo que eu não entenda bem dessa profissão, pois deixou a situação extrapolar dos limites para decidir se pararia as consultas com Fabrício. Tudo bem que essa é uma situação que pode sim acontecer, e deve acontecer mesmo, mas a questão não é bem explorada, nem mesmo é demonstrado o quanto isso é errado, que é uma falta de ética – embora diga que aquilo poderia pôr sua profissão em risco. O problema disso é deixar que pessoas que não compreendem isso o levem como uma verdade; formem um estereótipo de psiquiatra. E o que Paloma passa é o seguinte: uma mulher com problemas que se deixa levar pelos sentimentos, que não explora o problema de Fabrício – que é a separação dos pais e como isso o afeta – e sim questionando o que ela acha mais conveniente. (Mas não aparece que ela mesma foi atrás de um psicólogo! Simplesmente porque NÃO foi... Como assim? Ela também precisava!).

    Nos primeiros capítulos de Paloma são descritas as consultas, apenas diálogos (com um resumo da sessão ao final). É a única narradora que expõe diretamente sua fala, mesmo quando não está narrando a consulta.

    Há outras personagens que poderiam ser mencionadas e comentadas aqui, que possuem sua relevância na história, como: Nívea; Dulce; Verônica; Luciana; Rodolfo; Celeuma; Fabrício; Gisele; a chinesa Ling Lean; e o detetive Marlon. Porém, como falar de todos seria exaustivo e prolongaria muito, resumirei comentando da Celeuma, da Verônica, da Gisele e da chinesa. Os quatro pontos mais essenciais da obra.

    06/05/2016

    Espada de Vidro, de Victoria Aveyard (Resenha)

    Olá, pessoal!
    Há pouco tempo fiz minha breve resenha de “A Rainha Vermelha”, o primeiro volume da série de Victoria Aveyard, e tive um pouco de dificuldade para falar do livro, pois havia lido há algum tempo. Desta vez, tendo acabado de ler o segundo volume da série, Espada de Vidro, trarei minha opinião logo após terminar a leitura. É a primeira vez que faço resenha de uma continuação, e, infelizmente, não dá para falar de “Espada de Vidro” sem contar grandes spoilers do primeiro livro (Tipo: Maven?). Portanto, esta resenha tem spoilers do livro “A Rainha Vermelha”.
    “Espada de Vidro” é uma continuação direta do primeiro livro, sem espaço de um dia ou algo do tipo. De modo que a história já segue o fluxo da primeira. Eles estão “fugindo”, estão meio confusos sobre o que vão fazer etc. Grande parte da obra segue o percurso dos personagens em busca dos sanguenovos – os vermelhos que possuem poderes como os prateados –, enquanto Mare tenta montar seu exército para combater Maven e seu reino. Comparado com o primeiro livro, este é mais “recheado” de mortes e conflitos – sejam estes entre grupos ou individuais. Além de que não há pausas para descanso nesse livro, há sempre algo acontecendo, estão lutando, se preparando para lutar, fugindo, tendo discussões, o que for...
    Fonte: arquivo pessoal.

    Primeiramente, queria comentar sobre esse título bonitinho: Espada de Vidro. Particularmente gostei dele, e estava um pouco ansiosa para ver a explicação que dariam a ele. É “espada” por ser uma arma, a Mare se considera uma, e bem forte até, enquanto que o vidro e o “estilhaçar” da frase da contracapa mostram algo que pode ser elegante, afiado, porém frágil. Faz sentido se for considerar todo o desenvolvimento da Mare ao longo dos dois livros, principalmente depois da fala da página 275 – que é a da contracapa. Contudo, no momento em que foi dito, soou apenas como mais um pico dramático da Mare. Justo após, olha o spoiler, de ela tomar a decisão de alguma coisa. Ficou fugindo desde o primeiro livro – segundo a protagonista – e daí, pronto, decidiu algo. E, não sei, quando ela toma decisões, de algum modo, espera-se que a personagem saia um pouco da linha tênue da indecisão/fragilidade. Parece óbvio, mas, se for olhar, fica estranho. Talvez eu esteja equivocada ao pensar desta forma, e, se alguém entendeu diferente, por favor, me explique. Mas eu gostei do título, ok?

    Fonte: arquivo pessoal.
    Como na resenha do primeiro livro foquei mais no lado da guerra, digo que no segundo isso se tornou muito mais evidente. Não apenas as menções ou o fato da Guarda Escarlate aparecer bem mais neste livro, mas também o fato de que a morte está muito presente. Vários personagens morrem neste livro; a maioria deles nem é “relevante” para a história, mas trazem o caráter claro de como estava o clima naquela região. As pessoas estavam morrendo, às vezes por motivos bestas. Parando para pensar nisso, me lembrei do primeiro episódio de Dr. House (que assisti recentemente), em que há uma breve conversa sobre viver ou morrer com dignidade. Como House diz, não há dignidade no morrer; pode-se apenas viver com dignidade. Olhando para o livro, para a situação de grande maioria das pessoas, não há, de fato, dignidade na morte. Muitos sequer vivem com dignidade; mas estão em guerra, esse é o propósito, pensar nesse contexto e, então, encaixar todos os elementos que a história traz. Ademais, nesta questão, e o que vem a ser importante para a história, veem-se As Medidas, que apareceram mais ao final, acho, do primeiro livro. Estas Medidas foram pronunciadas pela própria Mare, o que a faz sentir culpa por isso.

    “As Medidas tornaram a vida dos vermelhos bem difícil, pior do que nunca, levando muitos deles às florestas e fronteiras em busca de um lugar onde não fossem forçados a trabalhar até morrer ou enforcados por dar um passo em falso”. (p. 287).

    Um ponto também importante para a história é como é encarada a questão de aceitar que a morte de alguns, em compensação pela vida de outros, vale a pena – por uma causa maior, tudo pode. Isso se somando ao fato de que a autora também mostra como pessoas iguais a “Mare de antes” agiriam, pensando como ladrões, de certo modo egoístas e cruéis, na justificativa de que a situação os fez assim.

    “Não é difícil deixar pessoas morrerem quando isso garante a vida de outras pessoas” (p. 213).

    Esse contraponto de como a protagonista era, pelo que ela passou e quem ela está se tornando é algo que a autora soube abordar. Apesar de eu considerá-la meio chata e, depois do primeiro livro, ter me enjoado um pouco com a narrativa dela, não dá para negar que o desenvolvimento da Mare Barrow foi bem colocado. De uma ladra passou a fingir ser uma prateada, e, mesmo após, como um sanguenovo, ainda passou por conflitos de quem de fato ela era e a que grupo pertencia. Tudo isso não deixando de considerar que ela tem dezessete anos; embora eu ainda desgoste do drama que ela faz.

    “Não importa o que eu faça, não importa o quanto eu tente ser um deles, os sanguenovos me enxergam como algo à parte. Seja líder ou leprosa, sou sempre uma estranha. Sempre separada”. (p. 299).

    O preconceito que Mare tinha contra os prateados no primeiro livro fica claramente modificado neste segundo livro. Ao conviver com prateados, ela acaba percebendo que a diferença entre eles não é tão grande quanto ela imaginava. E aqui me questiono se seria intenção da própria autora, desde o início, fazer menção à questão do preconceito; porque não dá para evitar pensar que essa divisão do livro é tanto social quanto “racial”. Afinal, pelo menos do que me lembro, todos os prateados possuem a pele clara; mesmo o ruborizar deles é deixá-los mais pálidos. Enquanto que Mare é descrita como tendo pele, olhos e cabelos castanhos.
     “Antes, eu acreditava que o sangue era tudo no mundo, a diferença entre a luz e a escuridão, uma divisão irrevogável e instransponível. Tornava os prateados poderosos, frios e brutais, desumanos até, quando comparados aos meus irmãos vermelhos. Mas pessoas como Cal, Julian e até mesmo Lucas me mostraram como eu estava errada. Os prateados são humanos como nós, cheios dos mesmos medos e esperanças. Não estão livres do pecado, mas também não estamos. Nem eu estou”. (p. 281)

    Mas o que fez Mare conviver com eles também foi justamente o que a tornou como eles; descobrindo e percebendo o poder que ela tem, surge certo prevalecimento de quem detém o poder perante os que não o tem. E isso aparece mais nitidamente quando ela se refere a seu amigo Kilorn.

    “Meu poder é meu bem mais precioso, ainda que me separe das outras pessoas. Mas por poder, pelo meu próprio poder, é um preço que estou disposta a pagar” (p. 77).

    Num geral, os personagens foram bem desenvolvidos, mas, como no primeiro livro, acho que isso seria ainda mais interessante se visto em terceira pessoa. Por exemplo, personagens como o Kilorn, a Farley ou o Cal poderiam ser mais explorados. Acho que gostaria mais disso do que os conflitos internos da Mare, que, devido ao que aconteceu no primeiro livro, passa a não confiar em ninguém, por vezes nem em si mesma.
    Fonte: arquivo pessoal.
    Não estava muito esperançosa com esse livro, e talvez por isso minha nota a ele tenha sido boa, porque a autora conseguiu manter um nível na série. Mas ainda achei que algumas coisas ficaram estranhas. Apesar disso, e talvez porque estou um pouco enjoada da narrativa da Mare – e, portanto, ler mais 400 ou 500 páginas disso parece complicado –, de fato, como o primeiro livro, o segundo deixou espaço para uma baita curiosidade quanto ao terceiro livro, que tem previsão para o ano que vem. E a grande questão é: Quem serão os mortos nos próximos dois livros?
    Apesar de a minha opinião não ser muito positiva quanto à série num geral, porque a meu ver é adolescente demais, acho que é uma história tranquila de se ler. A narrativa é simples, bem fluída, sem muitas descrições, além de que os diálogos são próximos à linguagem do dia a dia, isso é, há um tom de informalidade.

    Para quem gosta desse estilo de história, e de narrativa, recomendo a leitura. Enfim, essa é só a minha visão do livro. E vocês? Já o leram? =)

    01/04/2016

    Kokoro [Coração], de Natsume Soseki (Resenha)

    Olá, pessoal!

    Novamente a resenha é de uma obra japonesa, porém esta é do grande escritor Natsume Soseki (1867-1916). Já havia me deparado com outra obra do autor durante o ensino médio, que foi, surpreendentemente, sua obra de estreia na prosa literária, “Eu sou um gato” (Wagahai wa neko de aru), de 1905 – um livro que só pelo fato de ser um gato narrando já merece certa atenção. O autor também possui outras obras, como Botchan (1906), Sorekara (1909), entre outras. Desta vez pude ter o prazer de ler “Coração” – publicado pela editora Globo em 2008 –, graças a minha colega de curso Mai (Muito Obrigada!).

    Não é um livro com muitos personagens, cheio de ação ou mesmo fantasia. Pelo contrário, são poucos os personagens, não há ação e muito menos fantasia. Como o próprio título remete, “Coração”, é uma obra que abarca emoções do coração humano e as atitudes tomadas sendo guiadas por este. Mas se engana quem acha que este livro é um “romance” apenas. Há sim esse tipo de história no livro, mas há uma profundidade muito maior; a obra coloca o caráter da amizade em jogo, a busca por algo que satisfaça os próprios personagens em meio ao que a sociedade lhes impõe. Pode-se dizer que há quatro personagens principais, e o interessante é que seus nomes são desconhecidos (exceto o de um).

    O livro é separado em três capítulos, com várias partes menores cada um. Os dois primeiros capítulos (“o professor e eu” e “Meus pais e eu”) são narrados pelo protagonista sem nome, o “eu”; em nenhum momento ele é apresentado ou alguém menciona o seu nome, percorremos toda a história sem o saber – e isso pode ter sido muito proposital, pois essa abordagem em primeira pessoa – sem nome do personagem – nos permite sentir mais próximos da leitura. Ele narra os dois capítulos já após a morte do “Professor”, um homem que ele conheceu numa de suas férias, e por quem criou uma admiração curiosa ao longo dos anos. A obra inteira relata como ele conheceu esse Professor, descrevendo-o, buscando entender as ações dessa pessoa singular, o que o guiava a agir daquele modo, ao mesmo tempo em que se vê a relação que o Eu tem com sua própria família, comparando, por vezes, o Professor e seu pai.

    “Hoje, após sua morte, começo a entender. Não era que ele me odiasse desde o começo. Os cumprimentos secos e os gestos aparentemente frios que exibia às vezes não eram expressões de desagrado, buscando distância com relação a mim. O pobre professor estava alertando, aos que chegavam perto de si, que a aproximação não valia a pena. O professor, que não respondia ao afeto dos outros, antes de desprezá-lo, desprezava a si próprio” (p. 34-35).

    No decorrer do livro traçamos uma imagem do Professor, um personagem que se esquiva dos outros por motivos que só descobrimos, de fato, mais para frente da história. É na relação desses dois protagonistas que passa a haver o questionamento do que firma as relações humanas. Em dado momento, vê-se que mesmo as amizades são feitas por uma via dupla, não apenas você oferece algo, como espera receber algo. E quando não há esse retorno, mas há uma insistência, vê-se um momento de curiosidade e dúvida, um mover na mente dos personagens. Esse é um questionamento que o professor parece fazer ao Eu em dado momento. Ademais, uma questão interessante é que, em vários momentos, o Eu percebe que era por ser jovem e um tanto impulsivo que suas atitudes surtiam um efeito desejável; ao mesmo tempo em que pensa o que poderia ter mudado se houvesse feito algo diferente, agido de outro modo, pensado mais. E por vezes nós mesmos fazemos isso. Pensar no que passou e logo ver que tudo poderia ter sido diferente. Mesmo coisinhas pequenas como ter estudado mais para a prova.

    “Talvez por ser jovem, e por não ter absolutamente consciência de minhas atitudes, minha ação tenha sido valorosa de fato. Mas se por qualquer razão eu tivesse tomado outra atitude, que tipo de consequência teria trazido para nós?” (p. 41).

    Nos dois primeiros capítulos, além de conhecer o Eu e o Professor, vemos também a relação do narrador com sua família, a cobrança que os pais e a sociedade – de certo modo – fazem aos estudantes e futuros trabalhadores. Achei essa parte particularmente interessante, principalmente tendo em vista que me encontro no último ano da faculdade. Assim que acabam os estudos, e não há mais a “obrigação” para isso, precisa-se encarar o mundo de trabalho; trabalhar no que gosta ou no que lhe permitirá viver bem? O que, de fato, lhe agradaria? E o protagonista se vê nesse questionamento, ainda mais pela pressão dos pais para que ele encontre um emprego e seja motivo de orgulho. Não trabalhar não seria uma opção desejável; relembrando minhas aulas de sociologia e filosofia, encaixo isso na ideia de que trabalhar dignifica o homem. Ter um serviço e ser “independente” é o que, de algum modo, é imposto como necessário; é parte da sobrevivência a que precisamos passar para continuar vivendo.

    “Quando começam os estudos, todos têm uma grande expectativa em relação ao futuro, como o início de uma nova viagem, mas com o passar dos anos, e com a formatura se aproximando, é normal que a grande maioria se sentisse frustrada.” (p. 205).

    Contudo, mesmo com toda essa pressão aos estudantes, há outra questão curiosa que o livro aborda; o fato de se começar a pensar mais, de criticar mais no decorrer dos estudos e da construção de conhecimento. O Eu cria um distanciamento de sua família e da cidade em que viveu, um caráter até comum visto em diversas outras histórias. Com a criticidade e acomodação da modernidade, uma vida mais simples e regrada pelos convívios sociais acaba desagradando a muitos.

    “- Tem algo que não é bom nas pessoas que estudam, elas ficam cheias de argumentos” (p. 119).

    Fonte: Arquivo pessoal
    Mas essas cobranças sociais não se limitam ao Eu, pois no terceiro capítulo a cobrança aparece de outra forma ao Professor. Sendo este o narrador do último capítulo (“O professor e o testamento”); convém dizer que este capítulo é uma carta escrita para o Eu. O foco final do livro, então, passa a ser a vida do Professor, sendo que achei fantástica a forma como foi abordada, e poder ver o que move o coração humano; teria sido ali amor ou quase uma competição?

    Embora o capítulo três relate fatos cronologicamente anteriores aos capítulos um e dois, recomendaria não ler a orelha do livro, pois traz alguns spoilers – assim como no livro “O gigante O’Brien”. Para evitá-los omitirei fatos referentes a esse último capítulo no que se refere a mencionar personagens e suas histórias, pois há algumas questões muito interessantes. Como o fato do valor e distanciamento da escrita. E aqui me lembro do filme “Os narradores de Javé”, que assisti recentemente na aula de Escrita Criativa. Há toda uma questão de diferenciação entre a fala e a escrita, e quando o Professor coloca essa fala a seguir, fica muito evidente que independente de quanto tempo passe isso ainda vai importar. Pode não fazer muita relação entre carta e o ver a pessoa cara-a-cara hoje em dia, mas, se vermos no lugar da carta as redes sociais e todo o mais, o significado por trás é o mesmo, ainda é atual.

    “No começo, minha intenção era encontrar-me com você para falar-lhe pessoalmente, mas, ao começar a escrever, senti que dessa maneira poderia descrever-me melhor, o que me deixa feliz” (p. 278).

    E todas essas questões talvez não abarquem tudo que o livro me trouxe de reflexão. A narrativa é leve e fluída, e os personagens bem caracterizados. Esta é uma leitura que recomendo, seja para conhecer a escrita de Natsume Soseki ou simplesmente apreciar a obra. De negativo achei apenas o fato de a orelha do livro contar uma parte da história, apesar de, depois de feita a leitura da obra, ser um fato interessante, pois até mesmo compara aspectos da obra com obras de Machado de Assis. Por fim, uma fala de Roberto Kazuo Yokota sobre “Coração”:

    “Ao cabo, o romance se revela como um mergulho na condição humana, muito além dos exotismos, nacionalismos e “choques culturais” superficiais. Mas atenção: o mergulho, aí, é perigoso. O rio é profundo e sombrio, mesmo se sua superfície se mostre brilhante. Na superfície da água, a pedra mostra apenas uma pequena e aguda ponta; submersa, a rocha é descomunal: é preciso cuidado para não se cortar as arestas rochosas” (retirado do prefácio da obra, p. 22).


    E então? Já conheciam a obra? Leram ou pretendem ler? =)
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